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A penumbra dominava o pequeno ambiente. Os petrechos de informática eram os únicos objetos que ornavam a saleta, emprestando-lhe um aspecto moderno e racional.
Os móveis ergonômicos, além de obrigá-la a uma postura ereta, davam-lhe um certo aspecto de nobreza e altivez.
Não fosse o dueto da Alcione e do Alexandre Pires cantando "Estranha Loucura" (de Sullivan e Massadas), em volume suave e romântico, nada mais quebrava o silêncio.
Sobre o colo, contrariando a melhor postura, ela tinha algumas laudas apoiadas em uma prancheta de acrílico.
Suas mãos delicadas, de dedos longos, exerciam sobre o papel uma estranha coreografia, num incessante vai e vem com os dedos da mão direita, e um sobe e desce com o indicador da mão esquerda.
Movimentos leves, sutis, tão rápidos e precisos como se fossem uma máquina.
Na verdade, havia superado as primeiras dificuldades com muito empenho e dedicação, pois, como era canhota, aqueles procedimentos em nada contribuíam com sua inabilidade com a mão direita.
Ah! se fosse ambidestra como o Lu, sua única paixão, seu único amor. A música continuava ... "minha estranha loucura é tentar te entender e não ser entendida..." O Lu fazia tudo com ambas as mãos com a maior facilidade, diziam.
..."ver você me humilhar e eu num canto qualquer dependente total do teu jeito de ser..." interpretava Alcione.
Às vezes, reticente, repetia o mesmo procedimento mais de uma vez, como que querendo decorar uma frase, um trecho, uma palavra... sabe-se lá o quê ?
..."eu acho que paguei o preço por te amar demais..." cantava Alcione.
Ah! como não pensara nisso antes. Como não lhe passara isso pela cabeça ?
Passara a vida inteira tentando encontrar naquele homem virtudes que seguramente ele não tinha, mas agora sabia que, na verdade, apenas lhe havia poupado e escondido seus defeitos e vazios.
E ele ? Pretensioso e arrogante, sequer despediu-se pessoalmente, como um homem de verdade. Sequer teve a hombridade de ligar-lhe, para tornar menos impessoal aquele ato. Será que ela merecia essa atitude ?
Apenas uma carta. Uma lacônica carta, para pôr fim a uma relação de tantos e tantos anos.
..."me perdendo sem saber... coração vai doer, vai sentir falta de mim..." continuava a música.
O pensamento foi inevitável.
Você, Lu, vai sentir falta de mim !
E eu, que sem jamais haver visto seus olhos, gravei-os em meu coração, como os indeléveis caracteres em Braile de sua última carta.
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Carta
Carvalho de Azevedo
Meus dedos impregnados pelo Braile
Como o chumbo impregna a mão
Do atirador,
É todo o vestígio que ficou da carta
Que pôs fim ao nosso amor
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