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Maytê, foi minha colega de classe na Faculdade de Direito. Morena, tinha grossos cabelos negros (como as asas da graúna) cortados a chanel.
Bonita, interessante, independente, culta, boa aluna, apesar da pouca assiduidade.
Fizemo-nos amigos durante o longo, cansativo e desgastante curso.
Formei-me um ano antes que ela, pois, a sua falta de assiduidade, acabou por prejudica-la em uma ou outra matéria do currículo. Nunca mais a vi.
Um dia, muitos anos após nosso convívio na Faculdade, entre milhares de pessoas que transitam diariamente pela estação Sé do Metrô em SP, voltei a vê-la.
Muito mais bonita, agora talvez, aos 35 anos. Sempre imaginei, ser uns 20 anos mais velho que ela, pois, embora houvéssemos sido colegas na Faculdade, eu já havia feito carreira como economista, quando decidi fazer Direito.
Assim, em média, era pelo menos 20 anos mais velho que a grande maioria de meus colegas de Direito.
Com seu sorriso seguro, limpo, lindo, sedutor, foi logo me contando:
- Estou casada com um homem maravilhoso!
- Penso que ganhei na loteria, pois, fiquei muito tempo solteira, velha, desprezada, mal amada, com forte tendência à "titia" , achando que ninguém se interessava por mim.
- De repente, como por encanto, surge esse homem, vindo de um casamento desmanchado, com filhos já encaminhados, lindo, romântico, culto, educado, cavalheiro, gentil, rico, humilde, um exagero de homem!
- Quem jogou fora esse homem, indaguei-me tantas e tantas vezes? Quem houvera, como eu, ganho esse presente e, afinal o abandonado? Quem?
- Durante muito tempo dormia e tinha medo de acordar, receando que tudo fosse um sonho que teria fim ao momento que eu despertasse.
- Durante muito tempo, eu mesma não acreditava no que vivia. Como a vida foi generosa para comigo!
- Esse homem, significa na minha vida, a realização de algo, que por mais que eu desejara, jamais imaginara, jamais sonhara!
Só Maytê falou. Eu apenas ouvi e imaginei quem fosse aquele homem. Sabia, que Maytê não era dada a exageros, a mentiras, dissimulações, balelas. Teria ela mudado tanto? Eu não acreditava em tão profunda e nociva mudança. Ao menos não parecia, não se fazia evidente.
Esquecemo-nos do tempo. Haviam compromissos a serem cumpridos.
- Estamos "atrasadérrimos" disse repentina e graciosamente, como sempre.
Despedimo-nos com um abraço e um leve, social e burocrático beijo. Como nos tempos da Faculdade.
Nada de trocar telefone, endereço, e-mail, nada! Tudo, como se voltássemos a nos encontrar no dia seguinte, na mesma hora, na mesma sala, na mesma aula.
Quando ela se foi, fiquei a observa-la e a admira-la. Maytê era e estava muito mais bonita!
E o seu marido? Seria um homem ou uma lenda? Ainda havia pessoas assim?
Um homem que alguém jogou fora e uma mulher que ninguém quis, encontraram-se e foram felizes? É. Isso, de fato, está mais para lenda!
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